Sherlock: é tudo culpa do vento do leste | Judão

Quarta temporada da série termina após entregar uma grande reviravolta na vida do protagonista – junto com três dos melhores episódios da produção

SPOILER! Tanto nos livros quanto na versão da BBC, James Moriarty sempre foi o grande antagonista de Sherlock Holmes. Se na obra de Sir Arthur Conan Doyle ele era um professor frio e calculista, na versão de Mark Gatiss e Steven Moffat ele é um psicopata incontrolável e irritante. Duas versões amplamente válidas.

Na PROSA o professor aparece, de carne e osso, apenas uma vez, no conto O Problema Final. Ao final daquela história, Holmes e Moriarty caem das Cataratas de Reinchenbach, com ambos aparentemente morrendo – Sherlock retorna, é claro, e menciona o arqui-inimigo por mais algumas vezes, sempre agindo pelas sombras. Mas é isso.

Sherlock, a série de TV, como já falamos aqui no JUDÃO, tomou outro rumo, com os personagens ganhando uma outra vida. Jim Moriarty e Sherlock também despencaram para a morte no final do episódio The Reinchenbach Fall, no season finale da segunda temporada. Ali, como nas obras vitorianas, o detetive sobreviveu. Mas, e o vilão?

O que a série fez nas duas temporadas (e um especial) seguintes foi construir uma grande escala dramática, nos fazendo questionar se o vilão realmente morreu. Surgiram vídeos, mensagens, pistas indicando isso – ou, ao menos, que indicam isso na visão do protagonista.

Aí chegamos ao season finale desta quarta temporada, exibido no último domingo (15), chamado The Final Problem – e, como o nome indica, teria tudo para ser justamente o momento do confronto final entre Holmes e Moriarty. Tinha, mas não foi.

E isso foi incrível.

Na realidade, desde o especial The Abominable Bride, exibido em 1º de Janeiro de 2016, Gatiss e Moffat construíram uma outra história, bem debaixo dos nossos narizes. Se aproveitando da fixação de Sherlock por Moriarty, eles nos fizeram acreditar que o vilão, de alguma forma, poderia estar vivo OU que deixou um grande plano para ocorrer após a própria morte.

Só que não era isso. Ao final de The Lying Detective, os segundo episódio desta quarta temporada, descobrimos que tudo aquilo que está acontecendo é obra de um outro gênio do crime, Eurus.

Eurus Holmes.

Na obra de Conan Doyle, Sherlock e Mycroft nunca tiveram mais irmãos que fossem, ao menos, retratados nas histórias. Só que, nesta versão, descobrimos que Eurus (interpretada por Siân Brooke) não só existe, como também é muito mais inteligente que os dois irmãos. Juntos.

A diferença é que ela usa essa inteligência para o crime e para o ódio, meio que como uma criança experimentando essas emoções sobre as quais ela apenas racionaliza. Por isso, ainda muito jovem, Eurus foi presa numa espécie de ASILO ARKHAM do governo do Reino Unido, trancafiada e com a chave jogada fora. Agora, ela retorna meio que como o CORINGA de Sherlock, mais perigosa e arqui-inimiga que o próprio Moriarty (do qual gravou inúmeros vídeos para usar no momento certo, tipo agora).

Eurus, na mitologia grega, significa “vento de leste” e é até normal perto de Sherlock e Mycroft, né?

Com uma reviravolta tão grande, o season finale colocou em prática um dos mais audaciosos roteiros da série, juntando pontas que eram jogadas na nossa cara há algum tempo. A história também lida com diversos conflitos morais – de certa forma até superficiais, mas aqui a viagem maior é como a história é contada.

O recém-descoberto coração de Sherlock é testado, assim como todo o bromance dele com John Watson que, aliás, serve mais do que nunca como os nossos olhos em meio a tudo isso, a visão do cara normal que apenas tenta acompanhar os rápidos raciocínios dos Holmes.

Sherlock terminou essa quarta temporada lá no alto, seja em qualidade de roteiro, edição, atuações, montagem. Há contratos para uma quinta temporada e o final desta quarta serve como um grande RECOMEÇO de tudo. Vamos torcer para que a agenda dos protagonistas – principalmente a do Benedict Cumberbatch – não nos faça esperar tanto pela próxima leva de três episódios.

Enquanto isso, enquanto esperamos, dá pra ficar com um grande sorriso no rosto.