Zemo não é aquele Barão, mas é o vilão que a Marvel precisava há tempos | Judão

Helmut Zemo do cinema é bem diferente do personagem que a gente conhece dos gibis. Mas o papel que exerce em Capitão América: Guerra Civil — e nas consequências pro Universo Marvel dos Cinemas — é fundamental.

SPOILER! Se existe um problema recorrente nos filmes da Marvel, dá pra gente dizer sem pensar muito que são os vilões. Porque, você sabe, a gente nem precisa apelar pro óbvio e reclamar do Ultron genérico e suas hordas de robôs sem rosto ainda mais genéricos. Mas vamos combinar que Ronan, Malekith, Monge de Ferro, Jaqueta Amarela e toda esta galera não ajudam em nada na nossa busca por um vilão que valha realmente a pena, por melhores que os filmes sejam. Todos são apenas “aquele cara que o herói divertido vai enfrentar como desculpa para uma cena de ação de tirar o fôlego”. Nem mesmo o Caveira Vermelha, com um ator como o Hugo Weaving por baixo da maquiagem, consegue escapar da sina.

E o Loki... bom, tanto no filme dos Vingadores quanto no primeiro Thor, é preciso admitir que ele já não era exatamente um VILÃO, assim mesmo, tudo em caixa alta. Era no máximo “aquele cara malvado que a gente ama odiar”. E na aventura inaugural dos Maiores Heróis da Terra, ele quando muito desempenha a função de liberar uma horda de alienígenas tão sem rosto e genéricos quanto os robôs do Ultron. E só.

Enquanto constrói bem a humanidade de seus heróis, que são gente como a gente (no caso do Tony Stark, com alguns bilhões a mais), a Marvel acaba criando vilões unidimensionais nos cinemas, sem muitas camadas. A coisa parece que dá uma boa virada em Capitão América: Guerra Civil – que, sim, tem um vilão principal, um ANTAGONISTA, apesar do foco ficar em toda a treta causada pela divergência entre o #TeamCap e #TeamIronMan. E o vilão é sim Helmut Zemo.

A única coisa que ele tem em comum com a sua contraparte dos gibis é, de fato, o nome. Ele não é Barão, não é alemão, não é herdeiro de uma tradição nazista, não tem relação com a HYDRA, não odeia o Capitão América porque ele é o símbolo dos EUA. Nada disso. Aliás, se ele se chamasse John Doe, sejamos francos, em nada mudaria o seu papel na história. Mas tudo bem. Vamos seguir em frente. Esqueça os quadrinhos. ;)

Interpretado por Daniel Brühl, o Zemo da Guerra Civil cinematográfica não é, como eu mesmo temia, um “coadjuvante de luxo, tal qual foi o Barão Von Strucker em Vingadores: Era de Ultron – o remanescente da HYDRA que os heróis enfrentam no começo só pra dar um gostinho antes do robô psicótico entrar em cena”. Nops. Zemo tem um papel importantíssimo para a história.

A Guerra Civil começa porque os seres humanos sentem medo. Os seres humanos, estas fatalidades sem rosto em uma batalha que destrói metade do centro de Nova York, que derruba dois aeroporta-aviões em plena cidade de Washington, que ergue aos céus e depois atira de volta ao chão uma cidade inteira. Os seres humanos, ao mesmo tempo em que ficam boquiabertos com este bando de supersoldados coloridos, homens de armaduras, deuses nórdicos e monstrões verdes pulando de lá pra cá, ficam se perguntando se não vão se tornar meras estatísticas.

Uma destas estatísticas foi justamente a família de Helmut Zemo. Sua esposa e seu filho. Mortos como efeitos colaterais da batalha entre os Vingadores e os minions do Ultron. O vilão de Guerra Civil é a personalização, a representação viva dos Acordos de Sokovia. A única diferença é que ele não tem medo. Ex-militar, não tem superpoderes, apesar de seu treinamento. Mas não importa, porque ele vai manipular, ele vai mentir, ele vai enganar, ele vai matar, ele vai fazer de tudo em busca de sua vingança. Ele parece ter perdido completamente os sentimentos, tem um imenso vazio nos olhos e no peito. Os Vingadores são o seu alvo. Os Vingadores são o império que ele quer derrubar.

Um homem que não sente medo e não tem nada a perder é um PUTA vilão em potencial, não? Ele não precisa vestir uma armadura de aço. Ele só precisa ter uma arma nas mãos.

Capitão América: Guerra Civil

É no passado do Soldado Invernal que ele encontra o segredo pra colocar, de fato, os Vingadores um contra o outro. Muito mais do que uma divergência a respeito de um acordo que precisa ser assinado, eles se enfrentam no momento mais soturno e tenso do filme porque Bucky Barnes matou os pais de Tony Stark. Uma estaca é cravada no coração do Ferroso, ele é obrigado a encarar que um dos fantasmas que mais assombram seu passado, que ajudou a transformá-lo em quem ele é, foi culpa do Soldado Invernal. E Steve Rogers, a quem ele considerava um amigo, sabia disso.

Helmut Zemo revira arquivos da HYDRA, divulgados pela Viúva Negra, e encontra a sua arma secreta. É ele quem costura uma vingança com a qual Loki ou Caveira Vermelha nenhum sonharia. Peguem seus cubos cósmicos e enfiem no rabo. Zemo é humano. Um sujeitinho relativamente comum, não um cientista louco afetado com tique nervoso. Mas ataca com mais frieza e crueldade do que qualquer acusador dos kree com um martelo cósmico bombado por uma Joia do Infinito.

É claro que o plano dele acaba sendo meio rocambolesco e mirabolante, no fim das contas. Tem um quê de exagero. Afinal, ele é um vilão de um filme baseado em uma história em quadrinhos da Marvel, o que você esperava? É a mesma que tem o pessoal vestido de forma engraçadinha se socando. E, dentro do contexto geral, funciona.

O fato aqui é o seguinte: o vilão de Guerra Civil conseguiu exatamente o que ele queria. Ele dividiu a base dos Vingadores. Partiu seu coração em dois, criou uma cicatriz que vai ter reflexos diretos em tudo que for rolar no MCU a partir de agora, apenas revelando um segredo. Abrindo a caixa de Pandora. O vilão, gente, ele VENCEU. E ele sabe disso. Sabe outro filme no qual isso acontece? O Império Contra-Ataca.

Acho que a comparação é do tipo que diz BASTANTE a respeito de Guerra Civil.