A Disney ofereceu milhões pela voz do pequeno Simba. A mãe dele recusou: melhor decisão possível! | JUDAO.com.br

Jason Weaver, que cantou as músicas do pequeno Simba no Rei Leão original de 1994, recebeu uma proposta milionária… mas a mãe do garoto recusou. E tomou a decisão mais acertada de todas.

Nos meus dois primeiros anos da faculdade, o professor de Teoria da Comunicação repetia um mantra que ficou grudado na minha cabeça. Adepto de um combo do anarquismo e da teoria do caos, ele sempre dizia que se a gente quisesse mudar alguma coisa DE VERDADE no sistema capitalista, no jeito que as grandes empresas simplesmente MOEM pessoas, a gente teria que fazer isso por dentro. Teria que entrar nas empresas, aprender a jogar o jogo e HACKEAR os caras por dentro, virando as regras dos engravatados contra eles.

Talvez você não faça a menor ideia de quem é Jason Weaver, já que o hoje quarentão ator e cantor nascido em Chicago não é exatamente aquele astro que explodiu em Hollywood e ganhou fama e fortuna. Mas digamos que ele faz parte de um enorme batalhão de workaholics que, com um bom currículo fazendo pontas em séries e bicos em dublagens, fazem a indústria do entretenimento girar.

Mas ah, sim, ele fez O Rei Leão original. Sabe, o desenho animado de 1994? Pois é.

Na real, sua mãe, Kitty Haywood, cantora que fez relativo barulho local entre as décadas de 1970 e 1980 com o grupo de R&B Kitty & the Haywoods (formado junto com as irmãs e que chegou a servir de suporte pra ninguém menos do que Curtis Mayfield), logo reconheceu o talento do filhote para a música. E como ela já tinha feito também alguns trabalhos emprestando a sua voz, nos bastidores, para a indústria cinematográfica, foi natural que ela trouxesse Jason para este jogo também, onde já tinha lá seus muitos contatos.

E aí pintou a chance com O Rei Leão. Lembremos que, quando os diretores Roger Allers e Rob Minkoff apareceram com a ideia do filme, no começo dos anos 1990, não estávamos falando necessariamente de um hit absoluto, uma daquelas adaptações de contos de fadas que já eram sucesso garantido na casa do Tio Patinhas tinha muito tempo. Esta mistura de Shakespeare no reino animal com Kimba, O Leão Branco (pois é, não dá pra negar) era uma aposta que podia dar com os burros n’água. Mas, mesmo assim, quando apareceu a chance de colocar Jason Weaver, na época com pouco mais de 11 anos, para ser a voz musical do personagem principal, o leão Simba, a mamãe topou na hora.

Jonathan Taylor Thomas foi quem dublou as falas do pequeno aspirante à monarca da Pedra do Rei quando ainda era criança. Mas a voz de músicas como I Just Can’t Wait To Be King, com o Simba ainda jovem, é de Jason Weaver — que nem sequer aparece nos créditos. Mesmo assim, claro, chegou a hora de negociar o quanto ele receberia pela sua participação no filme, é justo que ele seja pago. E então Kitty Haywood foi absolutamente GÊNIA. E, como meu professor dizia, HACKEOU o sistema. <3

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Em entrevista para o canal VladTV, que você pode assistir na íntegra ali embaixo, Jason — que também é conhecido como J-Weav, quando se apresenta com sua mistura de soul e hip-hop — falou um pouco sobre a negociação. “Eu lembro que o valor era algo em torno de 2 milhões de dólares”, conta ele. “Você tem que lembrar, eles estavam saindo de sucessos como A Bela e a Fera e Alladin. A Disney tinha bala na agulha”. Mas a ideia, claro, é que estes milhões fossem pagos ao garoto assim, uma quantia única e, a partir dali, a Disney poderia fazer o que bem entendesse com as músicas e o filme.

Quando o agente responsável pela carreira de Jason ligou e anunciou este valor, a família ficou com os olhinhos brilhando, claro. “Esta quantidade toda de grana para uma família de classe média de Chicago, uau”. Só que depois que a empolgação toda passou, mamãe Kitty pensou beeeeeeeem mais racionalmente na oferta. “A Disney tinha a reputação de relançar as coisas”, continua explicando o músico, provando que pouca coisa mudou de lá pra cá. “Eu acho que, na época, eles tinham acabado de trazer de volta A Bela Adormecida e mais algumas outras coisas do seu catálogo, da época em que Walt Disney ainda estava vivo”. Então, a mãe de Jason pensou: “mas peraê, isso aí vai acabar fazendo muita grana ao longo dos anos, então o que acontece quando meu filho tiver 40? Ele vai poder receber um cheque relativo a este trabalho quando eles eventualmente relançarem?”.

Bingo.

Assim sendo, Kitty Haywood negociou para o filho um adiantamento de 100 mil dólares... e uma parte relativa aos direitos autorais, aquela palavrinha mágica chamada royalties. Uma parte que ele continua recebendo ATÉ HOJE. O que parecia ser uma ideia estranha, afinal US$ 100 mil tá BEM distante de polpudos dois milhões, se provou uma negociação brilhante, já que de lá pra cá se passaram bons 25 anos. E a gente obviamente perdeu a conta da quantidade de versões que O Rei Leão teve: um sucesso estrondoso, saiu em VHS, DVD, Blu-ray, edição especial, edição de colecionador, edição assinada pelos diretores, foi pra TV aberta, fechada, vai pra streaming... E, pelo menos na época, esta nem era uma negociação assim tão comum, a não ser que você fosse um GRANDE nome da indústria.

Como você deve imaginar, é claro que a grana que Jason recebeu da Disney durante esses anos já ultrapassou os tais 2 milhões ofertados inicialmente. “Quando chegou o primeiro cheque de direitos, eu e minha mãe achamos que estava errado, porque o valor era bem alto”, diz. “Devo tudo à minha mãe. Se ela não tivesse tomado esta decisão, teria sido o maior erro da minha carreira, pensando em negócios”.

Duas décadas atrás, Kitty Haywood pensou em algo que hoje tem até nome e gera um belo quinhão de discussão quanto os contratos estão na mesa, especialmente quando a gente fala de dublagem: direitos conexos. Também conhecidos, na nossa legislação, como “direitos vizinhos” ou “direitos análogos”, nada mais são do que uma proteção ao profissional para que o pagamento de direitos autorais incida igualmente sobre TODAS as interpretações ou execuções artísticas de uma obra e suas respectivas transmissões e retransmissões.

Foi baseado nisso, por exemplo, que Carlos Seidl, que faz a voz do Seu Madruga, entrou com um processo judicial contra o SBT para receber os direitos das múltiplas exibições que a série Chaves teve ao longo dos últimos 30 anos — e só depois que a treta se resolveu é que ele foi lá e deu a voz aos novos episódios que foram ao ar tanto pela emissora quanto pelo Multishow. O mesmo processo rolou com a viúva de Marcelo Gastaldi, ator que dublava o próprio Chaves e morreu em 1995.

Tata Guarnieri, a primeira voz de Jack Bauer na dublagem de 24 Horas, também entrou com um processo na Justiça e ganhou: “me pagaram pela voz para exibição na TV fechada, agora estão lançando em DVD e negociando com a TV aberta e eu não recebo nada?”, foi a corretíssima lógica do cara. Lógica que, aliás, acabou sendo responsável pela mudança na voz de Homer Simpson aqui no Brasil, belos 12 anos atrás — já que o hoje finado Waldyr Sant’anna cobrou o recebimento dos seus direitos conexos, não entrou num acordo e a mesma Fox acabou substituindo o cara por Carlos Alberto Vasconcellos.

Kitty Haywood: que mulher. E que mãe.