Brian Michael Bendis vai revelar a identidade do Superman pro Universo DC | JUDAO.com.br

Bendis promete que a parada é pra valer, com fortes impactos no Universo DC como um todo — e fez questão de relembrar que, em sua passagem pela Marvel, já fez o mesmo com o Demolidor

“Não tem kryptonita. Não tem Sr. Mxyzptlk. Não tem amuleto mágico. Não tem Bizarro”. Esta listinha é cortesia do roteirista Brian Michael Bendis, atual responsável pelo gibi do Superman, ao tentar deixar o mais claro possível, numa entrevista pro Washington Post, que a decisão que o herói está tomando a partir de Superman #17, disponível em formato impresso e digital a nesta quarta-feira (13), é pra valer.

Nada de truques, nada de estratégias que podem ser alteradas via acordos com demônios antigos + magia de velhos amigos (viu, Homem-Aranha, estamos falando com você). O arco de histórias The Truth, que se completa nas edições de número 18 (dezembro) e 19 (janeiro), trata de “um herói que deu demais ao mundo e agora quer um pouco para si mesmo”. O que vai acontecer é que o Superman vai revelar sua identidade secreta publicamente.

O escritor explica que esta não foi uma decisão fácil de ser tomada, gerando uma série de debates lá dentro dos corredores da DC. Ainda mais porque, num universo coeso e compartilhado, ela terá impacto direto também nos gibis escritos por outros autores, que tenham a presença do Superman e/ou de algum personagem compartilhado como a Supergirl, por exemplo. “Em algum nível, dá pra dizer que foi pra ISSO que a DC me trouxe”, explica ele, agora pro New York Times. “Eu não queria fazer as coisas do mesmo jeito que vinha sendo feito. Eu tinha que fazer por merecer o meu lugar”.

Mas quando questionado sobre o ceticismo dos fãs (que, claro, estão acostumados com este tipo de superevento acontecendo tanto na Marvel quanto na DC, com mortes e grandes revelações sendo revertidas num piscar de olhos poucos meses depois), Bendis concorda e entende a desconfiança, mas reforça: “eu não faço histórias falsas. Eu escrevi uma história na qual o Demolidor é desmascarado — o que é um tipo diferente de revelação de identidade — e esta foi a realidade do personagem durante 15 anos”, explica, relembrando que aquilo causou um bocado de dores de cabeça pra Matt Murdock. “E o mundo não acabou”, brinca.

“Eu só posso falar com base na minha própria trajetória que as minhas coisas não são feitas pra chocar. Elas são feitas porque fazem sentido pra história”, afirma. “E o único jeito de fazê-las é efetivamente contando a história”. E ele ainda conta que, no fim, tomaram esta decisão porque ela lhes permite contar 1.000 outras histórias do Superman que nunca foram contadas antes.

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A ideia é que, no caso daquele que é simplesmente o maior herói de todos os tempos, um símbolo reconhecido globalmente, a repercussão seja ainda maior e mais intensa do que foi com o diabão da Cozinha do Inferno.

Pra começar a entender qualé, no começo do ano teremos dois especiais, Superman: Heroes e Superman: Villains, mostrando as implicações para colegas (incluindo alguns poucos, mais próximos, que já sabiam) e antagonistas. “Todos que já tiveram algum tipo de contato com ele terão uma perspectiva e uma reação completamente diferentes a isso”, diz Bendis. “Alguns heróis ficarão empolgados, outros de queixo caído. E alguns vilões inclusive vão mudar de lado depois disso”, completa. Pois é: há toda uma questão envolvendo Lex Luthor abandonar de vez a vilania quando descobrir a verdade, ainda a ser vista se rola mesmo ou não.

“Como isso vai afetar os negócios? Como vai afetar o Planeta Diário? Como as pessoas vão lidar com as notícias que eles publicam a partir de agora? Ele terá que devolver o Prêmio Pulitzer? Todas estas questões vão ser trabalhadas muito rapidamente”, provoca o escritor, que terá ainda, lá na frente, o apoio de colegas como Matt Fraction e Greg Rucka em histórias/edições especiais. Afinal, existe toda uma discussão ética envolvendo um repórter cuja visão de raio-X poderia permitir ver coisas que não deveriam ser vistas sob o direito da privacidade, enquanto sua superaudição lhe daria a chance de escutar conversas que deveriam ter sido mantidas sob âmbito sigiloso... Nas mãos de um bom advogado, Perry White teria que dar as calças para justificar a idoneidade das reportagens investigativas assinadas por Kent estes anos todos.

Mas esta é uma decisão que não vai fazer a persona de Clark Kent desaparecer — ao contrário do que Bill defende no diálogo antes da luta final com a Noiva em Kill Bill: Volume 2, Bendis não acha que o jovem garotão tímido de Smallville é apenas um disfarce para que a criatura mais poderosa do planeta, quase um deus, “tripudie” da humanidade “fingindo” ser um de nós. “Clark Kent é uma parte enorme de quem o Superman é. Ele cresceu como Clark Kent. Ele não está desistindo disso. Ele está compartilhando isso com as pessoas. Ele está dizendo: isso é quem eu sou de verdade. É desta forma que sou bom de verdade nestes dois trabalhos, então quero que vocês saibam disso para que tenhamos um relacionamento mais honesto”. Essencialmente, de acordo com Bendis, esta revelação fará com que ele esteja mais próximo da melhor versão que pode ter de si mesmo.

“Ah, mas identidades secretas são parte integrante de todo o conceito de ser um super-herói”, o fã mais velho de gibis poderia defender. O roteirista explica que isso pode ter sido verdade no passado, mas não necessariamente faz sentido nos dias de hoje, para os leitores mais jovens, em especial aqueles mais acostumados às versões cinematográficas dos personagens. “Você precisa lembrar que, hoje, muitas das identidades secretas de outrora não existem mais nos quadrinhos. Os Vingadores não têm identidades secretas”, diz, e é verdade. Nos filmes do MCU, por exemplo, talvez o ÚNICO dos heróis que se esconde por trás de uma máscara verdadeiramente ainda é o Homem-Aranha. “Nos dias de hoje, pessoas com identidades secretas são aquelas que ficam online falando bosta”.

Mas de onde veio a decisão para esta revelação?

Bom, a atual versão do Superman nos gibis da DC é um Homem de Aço um tantinho mais velho, casado com a Lois Lane e pai de um garoto adolescente (e que tem poderes similares aos seus), Jonathan “Jon” Kent. Tamos falando aí de um Clark Kent pai de família, portanto, que se vê construindo seu próprio núcleo, com base nos valores que recebeu de seus pais terráqueos, lá na fazenda de Smallville. Embora o mundo não saiba ainda que Clark e Superman são a mesma pessoa, o mundo sabe, sim, que Clark e Lois são casados e têm um filho.

E aí que, assim que Bendis veio da Marvel e assumiu os roteiros do Escoteirão Azul, ele contou uma história sobre uma inoportuna foto de Lois beijando o Superman (ele mesmo, uniforme e capa) vazando para o público. Vivemos num mundo machista, não preciso explicar isso pro leitor que tenha um mínimo de noção da realidade. Então, vocês podem imaginar que mesmo na realidade dos gibis, a barra pro Super ficou limpíssima mais rápido do que se imaginaria, mas a imagem pública de Lois Lane ficou horrenda, tratada como a traidora que pulou a cerca e meteu um par de chifres no coitadinho do seu marido Clark.

“Eu tinha outra conclusão pra esta história toda, mas digamos que encontrei uma solução melhor”, Bendis conta sobre o desdobramento. Toda a trama da foto, que acabou fazendo com que o Superman se sentisse bastante culpado por não poder vir à público contar o que de fato aconteceu, foi o ponto de partida para que ele se pegasse pensando sobre o real objetivo de sua dualidade ainda existir. “Para quem ele estava mentindo, com o objetivo de proteger? Quem ainda não sabia que Lois era uma parte importante de sua vida?”.

Não foi a primeira vez que a identidade dele vazou, né?

Então, não, não foi. Na real, o tema já foi tratado em diversas histórias no passado, com maior ou menor intensidade, mas sempre naquela pegada “ah, tudo bem, era só um sonho” ou então, sei lá, com o Batman usando um disfarce para que Clark Kent e o Superman pudessem estar presentes no mesmo lugar e na mesma hora.

Mas em 2011, pelas mãos de Grant Morrison, o Superman passou pelo chamado “renascimento” como parte daquela coisa toda de reboot (MAIS UM!) da cronologia da DC Comics. Não usava mais capa, tava de calça jeans e camiseta apertadinha com o símbolo no peito, quase um Bruce Springsteen com superpoderes. Por falar em poderes, aliás, os do Homem de Aço foram drasticamente diminuídos — e em certo momento, por volta de 2015, senhoras e senhores, Lois Lane revela a sua identidade secreta pro mundo, na capa do Planeta Diário. História do século, furo dos furos.

Aí, pra continuar salvando os fracos e oprimidos, ele se torna uma espécie de pária, andando pelas estradas de cidade em cidade sob uma nova identidade, a do caminhoneiro Archie Clayton. Só que, vamos lá, tava na cara que este “novo” Superman não tinha mesmo funcionado. Pois eis que me surge, no crossover Convergência, uma versão do Homem de Aço de outro universo –- na realidade, um Kal-El que veio basicamente da cronologia dos anos 1990 e 2000, só que mais velho e com um filho com a esposa Lois Lane. Com a treta do Superman de calça jeans, a DC preferiu dar a este novo-velho Super, que vivia meio nas sombras e sem identidade heroica, os holofotes. E por mais que o Super mais velho tenha tentado salvá-lo, o Supinho mais jovem acaba morrendo. Em sua honra, o Clark de outros tempos veste o uniforme antigo e se torna o Superman que o mundo precisa. Problema resolvido.

Novo reboot na área, jogaram a culpa nos poderes de manipulação de realidade do Sr. Mxyzptlk para tentar “mesclar” as duas versões do personagem (nem pergunta...), suas linhas cronológicas meio que se conectam e eis que a identidade do herói volta a ser secreta (apesar de uma porrada de buracos cronológicos largados no meio do caminho).

“Ah, gente, então, era só um par de óculos”

Este argumento, durante anos, foi motivo de CHACOTA dentro e fora das histórias — como assim, uma repórter treinada como Lois Lane ou um detetive extraordinário como o Batman nem sequer desconfiavam que por trás daquela armação preta de Clark Kent se escondia o último kryptoniano?

Aí, claro, a gente tem que jogar um pouco da culpa disso não numa suposta burrice deste ou daquele personagem, mas na pseudociência dos gibis. Durante muitos anos, alguns roteiristas defendiam nas histórias, por exemplo, que o Superman estava sempre microvibrando em alta velocidade, da mesma forma que já vimos o Flash fazer na série de TV, fazendo com que fotos/filmagens de seu rosto estivessem levemente borradas, tornando a comparação entre ambos quase impossível. Junte a isso o fato de que ele se esconde à vista de todos, e bingo, em tese temos um disfarce perfeito, sem a necessidade de um capuz ou algo assim.

Além disso, em O Legado das Estrelas, a reinterpretação canônica da origem do herói pré-Novos 52, o roteirista Mark Waid cria uma nova camada de compreensão aqui. Clark se recusava a usar uma máscara e então sua mãe encontrou um disfarce ideal. Além do visual mais desleixado, da postura encurvada, nervosa e desastrada, os óculos serviriam para disfarçar seus olhos. Originalmente de um tom vívido e brilhante de azul quase sobrehumano, eles teriam seu brilho refratado pelas lentes, perdendo o impacto e lhe dando um tom mais humanizado.

Pode parecer conversa pra boi dormir, PORÉM num ótimo papo com o SyFy Wire, o roteirista John Byrne, responsável por restabelecer o status quo do Superman no Universo DC depois da Crise nas Infinitas Terras, falou sobre esta história toda da identidade secreta do Super usando como exemplo nada menos do que a performance de Christopher Reeve nos filmes clássicos do herói.

“Quando eu era criança, costumava dizer ‘quando ele foi tão estúpido para inventar de dizer às pessoas que tinha uma identidade secreta?’. Por que ele faria isso? Ele estava andando por aí com o rosto limpo, às claras. Não era como o Batman, usando uma máscara e fazendo as pessoas pensarem ‘tem alguém ali por baixo’. É assim que ele se parece o tempo todo”, afirmou Byrne, reforçando a argumentação geral de que Clark e Supes são a mesma cara, separada só por um óculos.

Mas aí... “Tem uma cena incrível no primeiro Superman na qual Lois sai para o quarto, para se trocar, e Clark está ali parado e percebe que precisa contar a ela que é o Superman. Então ele tira os óculos, muda o olhar, fica numa postura mais ereta e fica uns 10 centímetros mais alto”, diz. “E aí ele coloca os óculos de volta, se encurva e volta a ser o Clark. Christopher Reeve conseguiu me convencer que, se você joga o cabelo de lado, coloca um óculos e fica desleixado, consegue parecer outra pessoa”.

Portanto, minha gente... não, nunca foram SÓ os óculos. ;)

Tá bom, Bendis, vai. Quanto tempo isso dura, mesmo?

O WP não teve dó e perguntou se o roteirista conseguia enxergar, lá na frente, um cenário no qual este momento seria revertido, da mesma forma que foi a sua morte, e Clark iria buscar os óculos no armário para voltar a usá-los.

Brian Michaen Bendis, cheio de confiança, mandou um NÃO, sem duvidar de si mesmo. Mas aí baixou um pouco o tom.

“Eu tenho que ter cuidado com minhas palavras, mas, você sabe, essa é a Warner Bros., e eles não fazem coisas a esmo e isso foi aprovado”, diz. “Eles disseram: vá em frente. Sacamos o que você está fazendo. Entendemos. Isso leva o Superman para um lugar que gostaríamos de levá-lo”.