Hey, Disney! O nome disso é monopólio, tá? | JUDAO.com.br

E de imediato, a gente lembra de quem? Pois é, senhoras e senhores, dele mesmo. Do seu Martin.

Quando o Martin Scorsese disparou a frase que já se tornou destaque na retrospectiva pop de 2019, “os filmes da Marvel não são cinema”, muito gente se emputeceu — eu incluído, vou confessar aí. A frase EM SI é discutível, mas o argumento no qual ela está inserida, contexto né, acaba sendo absolutamente imbatível. A nossa Julia Gavillan já tinha elaborado melhor neste texto aqui, mas o próprio cineasta (que, lembremos aqui, é simplesmente UM DOS MAIORES VIVOS, apenas para deixar claro) entrou em detalhes em uma coluna pro New York Times e aí, meu filho, acaba sendo BEM DIFÍCIL discordar dele.

A gente ama gibi, ama super-heróis, se diverte um bocado com os filmes da Marvel (ou, pelo menos, com grande parte deles). Mas além do fato do cara ter todo o direito de não gostar das produções capitaneadas pelo Kevin Feige, olha só, quando ele diz que vivemos “tempos difíceis” para a exibição cinematográfica, com cada vez menos cinemas independentes das grandes cadeias em todo o mundo, tio Martin tá certinho. “A equação virou e o streaming se tornou o sistema primário de entrega. Ainda assim, não conheço um único cineasta que não queira fazer seus filmes para as telonas, para ser projeto para o público numa sala de cinema”. E isso vindo do cara que acabou de entregar O Irlandês pro Netflix, é bom lembrar.

“Eu gostaria que o meu filme tivesse rodado em telas grandes por mais tempo? Claro que sim. Mas não importa com quem você faça o filme, o fato é que a maior parte das telas de cinema hoje estão em multiplexes e lotados destes filmes de franquias”. Sacou que ele usou a Marvel apenas como sintoma de algo muito maior? “E se você vai me dizer que é simples uma questão de oferta e demanda, dar às pessoas o que elas querem, vou ter que discordar. É a coisa do ovo e da galinha. Se a gente só entrega às pessoas um tipo de coisa, é claro que elas só vão conhecer aquilo e querer cada vez mais daquilo”.

Basicamente, temos o Scorsese reclamando COM TODA A RAZÃO DO MUNDO que, OK, tem este monte de franquias aí, Marvel, Velozes e Furiosos, Star Wars, esta turma toda fazendo um monte de grana. Mas o grande ponto desta conversa é que existe cada vez menos espaço para que se possam ver também outras histórias no cinema. Outras narrativas, autorais, independentes, menores, mais intimistas, menos ÉPICAS, enxergam as possibilidades de se conectar com audiências mais amplas minguando diante de um gigantesco e colorido caminhão em alta velocidade, que chega atropelando quem vê pela frente. E aí, minha gente, temos que admitir que existe um motorista à frente deste caminhão. Que, no caso, é um camundongo orelhudo.

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Enquanto grande parte da imprensa especializada tava fervendo com a compra da Fox pela Disney, torcendo pela possibilidade de enfim ver os Vingadores enfrentando os X-Men, a gente já vinha repetindo e repetindo o quão ruim poderia ser ter uma única empresa de posse de todos os maiores lançamentos do ano, negociando como bem entende. “Você consegue imaginar um mundo em que a Disney é dona da grande maioria das coisas que você gosta e quer ver? Não precisa mais”, disse o Borbs neste texto aqui, de dois anos atrás. No mesmo ano, lá estava a casa do Pateta mostrando que aprendeu rapidamente como se tornar a casa do Imperador Palpatine, com todas as exigências comerciais feitas para exibir Os Últimos Jedis*. Basicamente: “é tudo nosso, você sabe que você quer e precisa disso, então eu vou cobrar o que eu bem entendo”. Capitalismo que chama, né?

De lá pra cá, claro, isso só piorou. Mas não é só a gente que tá de olho — porque, com a estreia de Frozen 2 lá na Coreia do Sul, a ONG Public Welfare Committee (Comitê de Bem-Estar Público) abriu uma queixa formal junto ao Ministério Público do Distrito Central acusando a Disney de MONOPÓLIO. Veja bem, estamos falando daquele que é, até o momento, o terceiro mercado mais rentável do mundo para a segunda história da Elsa, atrás apenas de EUA e China. Desde o lançamento oficial, no dia 23 de novembro, foram US$ 61 milhões arrecadados no país, ocupando quase 90% de todas as salas coreanas de cinema. Sabe aquilo que o Scorsese tava falando sobre se ter uma única opção? Então.

Há quem questione a métrica empregada pela PWC para chegar a este número — que calcula o percentual de um filme específico sendo que ele foi exibido pelo menos uma vez no dia especificado. Mas outras organizações, incluindo o chamado Conselho Coreano de Cinema (que atende pela sigla KOFIC), calculam o compartilhamento de tela tomando por base o número total de vezes que um determinado filme foi exibido e dividindo-o pelo número total de vezes que todo e qualquer filme foi exibido naquele dia. A lógica seria que uma mesma sala pode, ao longo do dia, ter diferentes filmes em diferentes horários. Usando esta medida, então Frozen 2 teria cerca de 50% das telas do país. Ah, então tudo bem. É bem tranquilo UM ÚNICO FILME ocupar metade das salas de cinema de um país. Tá legal assim.

O lance é que a ONG acusa a empresa de, com esta estratégia arrasa-quarteirão, violar o chamado ato antitruste do país. A PWC afirma que isso se enquadra em uma cláusula que define qualquer indivíduo ou empresa com mais de 50% de participação de mercado como uma “empresa dominante no mercado”. De acordo com o texto da queixa formal e pública, a Disney “tentou monopolizar as telas e buscar grandes lucros no curto prazo, restringindo o direito de escolha do consumidor”.

A atual lei sul-coreana não chega a ter uma norma que fale especificamente sobre um limite para a parcela de telas que um filme pode ocupar, mas com o domínio dos sucessos de bilheteria importados + os grandes sucessos locais dos principais estúdios coreanos, iniciou-se um FERVOROSO debate da indústria sobre o assunto. Ao assumir o cargo em abril, o ministro da Cultura da Coréia do Sul, Park Yang-woo, chegou inclusive a prometer considerar a implementação de um sistema de cotas de tela para a indústria cinematográfica nacional. No mesmo mês, o representante da Assembléia Nacional, Woo Sang-ho, do Partido Democrata da Coréia, apresentou um projeto de lei que indica que a porcentagem de qualquer filme exibido em qualquer cinema do tipo multiplex não pode ultrapassar 50% durante o “horário nobre” do cinema, definido como algo entre 13h e 23h. A lei ainda está em tramitação.

Para completar, na semana anterior, um grupo de cineastas coreanos que se autodenominam “Conselho dos Cineastas pelo Antimonopólio” emitiu uma declaração pedindo ao governo que aborde a questão de forma agressiva. “O monopólio de tela não é um caso pontual”, afirmou a coalizão em comunicado oficial. “O governo precisa enfrentar este mercado cinematográfico do tipo ‘o vencedor leva tudo'”.

É preciso, de verdade, parar de ter medo de discutir certas questões e começar a dar às coisas os nomes que elas realmente têm. Ditadura é ditadura, censura é censura. E o “comércio abusivo que consiste em um indivíduo ou grupo tornar-se único possuidor de determinado produto para, na falta de competidores, poder vendê-lo por preço exorbitante”, tem um nome. É monopólio mesmo, tá?