Em 2019, mais filmes entre as maiores bilheterias foram feitos por mulheres | JUDAO.com.br

Estamos falando da maior taxa em 12 anos, que mais do que dobrou na comparação com o ano anterior. Que bom. Mas você sabe que dá pra melhorar, né?

A gente não vai repetir, de novo, que a inclusão em Hollywood anda a passos de uma tartaruga idosa com artrite. Há parcelas da indústria que DEFINITIVAMENTE ainda não entenderam que o cinema não deve ser feito apenas por homens brancos, ricos e heterossexuais, mas pelo menos avanços importantes em alguns setores são feitos. É o que mostra esse estudo que a Iniciativa de Inclusão da USC Annenberg, a Escola de Comunicação e Jornalismo da Universidade do Sul da Califórnia, elaborou.

Chefiada pela professora e doutora Stacy L. Smith, a pesquisa recente revelou que 10,6% dos 100 filmes de maior bilheteria de 2019 foram feitos por mulheres, o nível mais alto desde 2007 — um salto significativo em relação à 2018, ano em que apenas 4,5% dos filmes estavam na mesma categoria. “Esta é a primeira vez que vimos uma mudança nas práticas de contratação de cineastas em 13 anos”, declarou Smith.

Um grande colaborador para esse salto foi a Universal Pictures, com cinco filmes com diretoras presentes na lista. No início de 2018, a Universal se tornou o primeiro grande estúdio a apoiar o 4% Challenge, um compromisso público de trabalhar com pelo menos uma diretora em um longa-metragem nos próximos 18 meses. O pior histórico ficou com a Paramount Pictures, com apenas três filmes com mulheres no comando lançados no mesmo período. Não que de três pra cinco seja uma diferença muito grande, mas...

No geral, o estudo constatou que 70 dos 1.448 diretores se identificaram como mulheres.

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Embora exista um avanço significativo, segura a comemoração aí, porque o estudo frisou que muito progresso ainda precisa ser feito para existir uma verdadeira igualdade entre mulheres por trás das câmeras. Em 2018, a porcentagem de diretoras pertencentes à grupos raciais e étnicos sub-representados foi de 21,4%, mas esse número caiu para 16,8% em 2019, tornando a proporção de diretoras brancas para diretoras de grupos sub-representados de aproximadamente cinco para um. Historicamente, menos de 1% – UM POR CENTO! – de todas as diretoras nos últimos 13 anos eram mulheres não brancas e apenas Ava DuVernay e Jennifer Yuh Nelson tiveram mais de um filme nos 1.300 filmes da pesquisa.

“De fato, 13 mulheres dirigiram um filme de destaque em 13 anos. Embora 2019 seja um ano marcante para elas, não podemos dizer que há uma verdadeira mudança até que todas as mulheres tenham acesso e oportunidade de trabalhar nesse nível”, afirmou acertadamente Smith. Além de DuVernay e Nelson, outras diretoras não brancas citadas no estudo são Melina Matsoukas, Kasi Lemmons, Patricia Riggen, Loveleen Tandan, Gina Prince-Bythewood, Stella Meghie, Tina Gordon, Roxann Dawson e Sanaa Hamri. Ter apenas 11 diretoras não brancas em uma lista com 1.300 filmes é um número VERGONHOSAMENTE baixo.

O estudo também forneceu informações importantes a partir da análise de notas dadas a esses filmes no Metacritic, o site americano que reúne críticas de qualquer produto de entretenimento. A pesquisa descobriu que mulheres não brancas receberam as notas médias mais altas do site em comparação com filmes dirigidos por homens brancos, homens não-brancos e mulheres brancas. “No entanto, mulheres não brancas são menos propensas a trabalhar como diretoras entre os 100 melhores filmes a cada ano. Essas descobertas sugerem que quando as empresas procuram contratar ‘a melhor pessoa para o trabalho’, elas não contam com critérios objetivos, mas com uma visão subjetiva dos contadores de histórias”, disse Smith.

Em entrevista para o Los Angeles Times, a atriz e cineasta Kasi Lemmons (Harriet) comentou que não existem desculpas razoáveis para essa discrepância apontada na pesquisa. “Eu me pergunto sobre o efeito assustador que essas estatísticas têm sobre as mulheres que estão chegando ao mercado. Você pensaria que uma forma de arte de sonhos e magia, de empatia e humanismo, seria exatamente o oposto de algo flagrantemente tendencioso”, afirma. “Se a indústria cinematográfica não é um lugar no qual uma jovem sub-representada possa ousar sonhar em trabalhar e prosperar, o que estamos dizendo?”.

Essa visão pasteurizada dos estúdios também influencia indicações nas principais premiações da indústria, algo bastante evidente na lista final de indicados e vencedores ao Globo de Ouro 2020. Mesmo com esse aumento de diretoras entre os 100 melhores filmes, apenas 5,1% dos indicados na categoria de Melhor Direção no Globo de Ouro, Oscar, DGA e Critics’ Choice Awards eram mulheres entre os anos de 2008 e 2020. Nesse período, 94,9% dos indicados eram homens e apenas QUATRO mulheres foram nomeadas, sendo que apenas Kathryn Bigelow ganhou. Por outro lado, o número de diretoras de longa-metragens presentes na Competição Dramática dos EUA no Festival de Cinema de Sundance foi de 34,5% entre 2015 e 2018. Não é como se mulheres não estivessem fazendo filmes: elas são sumariamente ignoradas.

Além de injusta, a falta de reconhecimento colabora para a indústria continuar repetindo seus erros e não acabar com os estereótipos envolvendo mulheres dirigindo filmes. Como o próprio estudo destacou, 2020 parece bastante promissor com filmes de ação de grande orçamento nas mãos de diretoras, como Mulan, Os Eternos, Mulher-Maravilha 1984, Viúva Negra e Aves de Rapina – Arlequina e sua Emancipação Fabulosa. O verdadeiro progresso virá quando toda e qualquer mulher tiver a oportunidade de dirigir filmes de todos os gêneros e qualquer orçamento. Pode demorar, mas a equidade virá.