Eu não tava preparado para Modern Love | JUDAO.com.br

Era só uma série, deveria ser só uma resenha. Acabou não sendo nenhum dos dois.

Desde que comecei a assistir a The Office em modo binge, uma das coisas que eu mais tenho visto em termos de conteúdo audiovisual é o teaserzinho de Modern Love, série do Amazon Prime Video que estreou na última sexta-feira (18).

Vi tanto que até consigo descrever de cabeça, do nada: primeiro aparece a Anne Hathaway andando de bicicleta, em algum momento temos Tina Fey e John Slattery afirmando que terapia de casal é o “date night” deles e aí o Dev Patel joga sua aliança na rua enquanto diz que “amor é confiança, e você quebrou”. Vem a belíssima face de Catherine Keener e logo depois “Modern Love”, “em breve”, tela preta, esses nomes todos de cima pra baixo, e então vemos o Jim fazendo algo com o Dwight na sequência, no chamado cold open.

Mas essa parte não tem a ver com o teaser. Só estão intimamente ligadas no meu algoritmo.

Modern Love ainda tem no elenco gente como Andy Garcia, Sofia Boutella, Cristin Milioti, John Gallagher Jr. e até o Ed Sheeran, mas a verdade é que aquelas pessoas do trailer eram mais do que suficientes para que eu me interessasse por essas histórias sobre o amor moderno — não foi à toa que o marketing resolveu escolher aqueles nomes, afinal de contas. Nem pra série, nem pro teaser e nem pros episódios que foram liberados para a imprensa antes da estreia e aos quais o JUDAO.com.br teve acesso depois de alguuuuma dificuldade por parte da assessoria de imprensa.

Oi? Sim, são histórias, no plural. Cada episódio — com cerca de 30mins cada, uma delícia deliciosa — conta uma, sem relação alguma com a outra. Única coisa em comum acaba sendo Nova York, o que é explicado pelo fato de a série ser uma adaptação de uma coluna do New York Times, escrita durante 15 anos pelos leitores do jornal e que, há quatro voltas da Terra em torno do sol, se tornou um podcast também.

Eu, porém, não sabia de nada disso. Pelo teaser, imaginei mesmo que seria uma antologia — não sairia nada (absolutamente NADA) barato contratar aquela galera pra uma série. Mas aquele vídeo ao qual assisti tantas vezes e me fez virtualmente levantar a mãozinha tal qual Hermione Granger e dizer que queria poder ver os episódios pra escrever, assim que recebemos o e-mail falando sobre essa possibilidade aqui no JUDAO.com.br, não me preparou pro momento em que Lexi, a personagem de Anne Hathaway no episódio Take Me as I Am, Whoever I Am (o primeiro que assisti), depois de acordar ridiculamente feliz, vai atrás de um simples pêssego num supermercado e conhece um cara sensacional com quem marcou um date pra dali uns dias, então chegaria em casa empolgadíssima depois do trabalho e seria perseguida pelo “monstro de filme de terror antigo, que mesmo que você corra e ele ande devagar, tá sempre no seu pé”.

Ela descreve sua cama como um refúgio, o único lugar em que aquele monstro não a pega. A questão é que o monstro não vai embora e Lexi acaba passando dias sem conseguir sair dali.

Lexi tem transtorno bipolar. Ela fala disso rapidamente alguns momentos depois, sem dizer explicitamente que tem essa condição, mas acredito que todo e qualquer ser humano com algum tipo de transtorno, como a depressão, vai se identificar com aquele momento. Aqueles minutos, ou até mesmo segundos, em que a única coisa que o nosso corpo consegue fazer é nos levar até nossa cama e impedir que a gente saia de lá — nem pra comer, nem pra tomar banho, quanto mais viver.

Bate. Bate forte pra caralho.

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A bipolaridade de Lexi é mostrada nesse primeiro momento comparando cenas dignas de musical da Disney (com pessoas executando coreografias ao fundo, todas sorridentes e ridiculamente felizes) e sua fuga dentro da própria casa; num segundo, a divisão é feita entre a abertura de uma série de comédia dos anos 1980 e a absoluta impossibilidade de receber aquele cara incrível que ela conheceu no mercado em sua casa — mesmo vestida pra isso, mesmo as velas prontas e acesas na mesa, mesmo ela dizendo pra si mesma que não queria aquilo de uma maneira tão desesperadora quanto próxima.

Talvez eu esteja falando demais sobre esse episódio, e eu peço desculpas por isso. Mas é que é realmente difícil escrever minhas impressões sobre uma série que eu sinceramente não sei dizer se gostei, sinceramente não consigo dizer um “ASSISTE CÊ VAI GOSTAR!” ou qualquer coisa do tipo simplesmente porque... quebrei. A porrada é forte, a bomba cai perto demais.

Lexi nunca contou pra ninguém sobre sua condição. Foi diagnosticada, teve diversos remédios receitados, mas ela nunca pensou que as pessoas a compreenderiam, até o dia em que foi demitida (“mesmo você sendo boa no que faz, não dá pra justificar tantas faltas”) e sua chefe, além de se despedir dela ainda no escritório, cancela todos os seus compromissos pra um café e depois um almoço e o que viesse a seguir ao finalmente encaixar as mais diversas peças daquele quebra-cabeças.

Saúde mental ainda é o que chamamos de tabu. Pra quem tem seus problemas, pra quem precisa conviver com eles. Numa sociedade em que empatia não vem de fábrica, então, tudo fica ainda mais complicado — há toda uma cobrança para que uma pessoa com um transtorno se encaixe no que o outro acredita que seja aquela doença, seja pelo que ouviu falar, seja até mesmo porque em algum outro momento passou por aquilo.

A questão é que os processos são diferentes, as pessoas são diferentes... Só mesmo a doença é igual.

Confessar uma coisa aqui pra vocês, caso não tenham se ligado ainda: eu percebi que, no meu processo, sendo que eu ainda tou na fase de tentar entender quem sou, falar sobre minhas condições me ajuda, serve como um espelho. Eu coloco as coisas pra fora, elas retornam e eu consigo absorvê-las, ao invés de ficar dentro da minha própria cabeça lidando com tudo aquilo num emaranhado de pensamentos e emoções (dá pra entender melhor como isso tudo funciona assistindo ao 3o episódio de Explicando – A Mente... Tem no Netflix!). É uma maneira extremamente válida de lidar com isso tudo, como cientistas OUSARAM afirmar, pra desespero de quem me considera egoísta, pra quem acha de boa afirmar que eu “uso minha saúde mental como muleta”.

Não que eu esteja aqui dizendo isso rindo da cara dessas pessoas, porque de repente precisei lidar não só com minha saúde mental como com a culpa por não ter uma das melhores e um desemprego — o que depois se misturou o suficiente pra eu me sentir culpado por estar desempregado. É o famoso sentimento de LIXO. Você se sente um LIXO. Você sabe que não é... Mas é exatamente assim que você se sente.

Eu, aliás, resolvi até fazer um pouco como a Lexi e me calar. Não totalmente (se você chegou até aqui acho que isso não chega a ser uma surpresa), mas de um jeito que ainda me machuca. E que me faz sentir raiva de mim por me machucar. E que me machuca ainda mais. E que me faz querer explodir e acabar logo com isso. E que me faz ficar com raiva por não conseguir explodir. E que me faz sentir culpa. E... Bom, deu pra sacar.

A Lexi, no fim das contas, percebe o quanto falar faz bem. O quanto é terapêutico botar pra fora e falar sobre suas condições, o quanto a maioria das pessoas são empáticas e, tal qual sua chefe, conseguem terminar seus quebra-cabeças e seguir em frente. Ela, que na verdade se chama Terri, chegou a ser publicada pelo New York Times e tá sendo interpretada por Anne Hathaway e isso é maravilhoso.

Mas isso, é claro, é o que eu (e provavelmente você) penso, olhando de fora. Eu tenho quaaaase certeza de que isso não basta pra ela. Nunca o que nós pensamos que é bom pro outro basta.

Mas tá, Borbs. A série se chama Modern Love e você só falou de saúde mental!

Bem... Você conhece algum, qualquer um, tipo de relacionamento moderno que seja como um conto de fadas?

Aquela coisa de duas pessoas que se conhecem, se casam, aquela coisa toda, sem nenhum — absolutamente NENHUM — tipo de problema que jogue todo mundo pra um buraco onde fica tudo muito mais complicado de sair? Relacionamentos hoje em dia são muito mais sobre tirar o outro da merda do que “viver feliz para sempre”... E tá tudo bem. É o mundo em que a gente vive. Nós temos de lidar com isso — seja relacionamento amoroso, seja amizade, seja profissional.

E é aí que está o grande poder de Modern Love.

Rallying to Keep the Game Alive, por exemplo (o episódio da Tina Fey e do pai do Tony Stark) mostra que casais não necessariamente precisam ficar juntos para serem feliz — como casais e, principalmente, como pessoas. Mostra que, muitas vezes, a insistência na permanência em um relacionamento que obviamente teve (e ainda tem) ótimos momentos, ótimas histórias, ótimos resultados, serve apenas pra machucar tudo o que foi construído, além de dois indivíduos que, é sempre bom lembrar, nunca param de mudar. Nunca.

O ponto chave desse episódio está em um jogo de tênis. Enquanto se obrigam, como um combinado na terapia de casal, a jogarem juntos, nada além de desgaste sai dali. Quando vira apenas alguma coisa que eles curtem fazer, o que vemos é respeito, amor, até mesmo união... Por mais que não estejam casados.

When Cupid Is a Prying Journalist “apresenta” o conceito do AMOR NÃO TESTADO. Aquele amor que surge, que começa a florescer mas, por quaisquer motivos, acaba não acontecendo. É uma história importante sobre ser, sobre existir, sobre viver, sobre deixar ir. Por um lado, uma escritora (Catherine Keener) que acabou vivendo uma vida completamente diferente, sem nunca saber como teria sido a vida ao lado do cara que ela achou que tinha feito algo com ela e que, no fim das contas, não era exatamente aquilo; do outro, um jovem empresário (Dev Patel) que não aceitou o que praquele casal era uma traição, mas nunca, em momento algum, conseguiu deixar pra lá o que não vive.

É bonita ver a maneira como ela conta a sua história, e como essa história se encaixa na dele. Trata-se claramente de uma coisa que nunca acabou e que ela tenta, através dos outros, corrigir. Mas, muito mais importante que isso, trata-se de algo no qual ela precisava colocar um ponto final.

Tem gente que precisa disso, mesmo. Mas é aquela coisa: não é só porque um quer, que o outro precisa dar. Ou que sequer simplesmente pode ser dado.

O último dos episódios aos quais assisti foi When the Doorman Is Your Main Man, sobre uma jovem AND solteira (Cristin Milioti, a mãe dos filhos do Ted) que acaba criando uma relação um pouco... estranha com o porteiro do seu prédio. Confesso que, além de esse não ter lá muito significado pra mim, me incomodou um bom tanto — é algo muito mais próximo de uma codependência do que amor, de fato, por maaaais que lá no final tudo acabe bem e bonitinho e fofo.

Mas não dá pra romantizar essa coisa de que uma pessoa PRECISA de outra. Que uma pessoa vive em função da outra. Que o fato de uma pessoa querer algo melhor pra si é egoísmo.

Confesso aqui que, depois da estreia da série, não tive exatamente VONTADE de assistir aos outros episódios. Eu claramente não consigo me distanciar o suficiente pra considerar que são apenas “histórias de amor bonitinhas” ou qualquer coisa assim. Houve um tempo em que me sentiria ridiculamente culpado por isso, uma vez que, bem, faz parte do meu trabalho.

Mas... Não vou chamar de egoísmo o que eu faço pela minha saúde, certo? Nem ninguém deveria fazer isso.

Provavelmente vou acabar assistindo a tudo, de acordo com as conversas que tiver, de acordo com os comentários que for lendo (o episódio da Sofia Boutella, por exemplo, será o primeiro). Mas o que essa série nos diz, no fim das contas, é algo que a gente já falou por aqui em um outro momento, com outras palavras, em outra situação: respeite a si mesmo. “Amor próprio” é um conceito muitas vezes abstrato, muitas vezes brega. Mas é no exato momento em que você começa a se perceber, a sentir que sua existência é importante, que o amor nasce. Amor puro, amor verdadeiro... Amor capaz de ser apenas e tão somente amor.

Como todo amor, moderno ou não, deveria ser.