His Dark Materials enfim supera o trauma DAQUELA adaptação pros cinemas | JUDAO.com.br

Produção HBO/BBC não apenas se beneficia de um timing melhor e mais cuidadoso para apresentar os complexos conceitos da série de fantasia de Philip Pullman como também bate mais pesado em temas que o filme da New Line apenas arranhou

Olha só, tirando o urso branco de armadura da sala, não é como se eu ODIASSE a adaptação para os cinemas de A Bússola Dourada (que virou “de ouro” no título nacional pras telonas porque ALGUÉM decidiu que, caso contrário, pareceria bijuteria. E EU NÃO ESTOU INVENTANDO ISSO.), o primeiro livro da série de fantasia Fronteiras do Universo. E nem é uma lembrança emocional, já que fiz parte da equipe que lançou o negócio aqui no BR. Mas o potencial ali era mesmo enorme: a mesma New Line que fez Senhor dos Anéis, um bom elenco (Daniel Craig era praticamente como eu imaginava Lord Asriel, e ainda tinha Ian McKellen como a voz do Iorek, Sam Elliott como aventureiro Lee Scoresby...), um diretor empolgadíssimo com o projeto... Enfim.

Doze anos depois, acho que já deu pra perceber que a empreitada não deu muito certo — tanto é que a tal trilogia que prometia adaptar os três livros jamais aconteceu. Mas das muitas coisas que as pessoas citam como sendo erros crassos do filme, aquela que de fato me incomoda mais, depois de assistir ao filme novamente mais umas três vezes ao longo dos anos, é o TIMING. Faltou edição na narrativa. Faltou decidir o que era de fato importante pra história, o que podia ficar pra trás, o que podia ser mesclado, ao invés de tentar amontoar tudo em duas horas de película, causando uma correria monstruosa em nome da ultrafidelidade. Deu no que deu.

Este é, de MUITO longe, o grande acerto de His Dark Materials, a transformação para série da obra de Philip Pullman, uma cortesia da BBC para a telinha da HBO e que estreou oficialmente esta semana. Com vários episódios adiante, cada elemento da trama pode receber o peso adequado, revelando os temas devagar, sem pressa.

Entendemos quem são os daemons, as manifestações animais da alma dos seres humanos que andam sempre ao seu lado. Ouvimos sobre o Pó, a substância herética que circunda os adultos e é considerada responsável por seus atos mais pecaminosos. Somos apresentados aos Papões, responsáveis pelo sequestro das crianças gípcias — e vemos um pouco mais da sua sociedade em detalhes. Criamos a conexão entre Asriel (James McAvoy) e Lyra (Dafne Keen). Tudo do jeito que deve ser, pra ajudar a criar a conexão certa com o espectador.

Aliás, Dafne Keen, a X-23 de Logan, está ótima como uma versão menos idealizada da garota órfã Lyra, um outro acerto da série em relação ao filme. E esta questão do TOM também difere bastante. A Inglaterra desta espécie de realidade fantasiosa alternativa é menos brilhante, intensa, colorida, quase como se querendo forçar uma ambientação épica, grandiloquente. Na verdade, na série é tudo mais escuro, sombrio, quase sépia. E isso combina SUPER com a condução de uma das principais linhas narrativas do livro, apenas pinceladas no filme: a nossa relação com a religião.

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A obra de Pullman tem um lado bastante assustador e que, na transposição cinematográfica, meio que ficou em segundo plano — talvez aí a segunda coisa que mais me incomoda hoje ao rever o filme. Porque mais do que mundos paralelos, daemons, ursos vestindo armaduras e aventureiros steampunk voando em balões (Lin-Manuel Miranda <3), a grande carga desta Terra imaginada pelo autor é que quem domina o mundo não são os políticos, mas sim o Magisterium. No caso, a união de vários órgãos de influência religiosa e que juntos representam a Igreja Católica. Toda esta discussão sobre heresia, sobre o efeito do tal Pó, sobre uma instituição castradora da nossa liberdade por meio de uma suposta fé, ISSO é o cerne da história, acima de qualquer batalha final na neve meio Senhor dos Anéis com bruxas, ursos, bichos que se transformam e veículos voadores. No primeiríssimo episódio, já tá claro não apenas que o Magisterium não será retratado como um vilão histérico, mas sim como uma instituição insidiosa que, silenciosamente, manipula as nossas vidas dos bastidores, das sombras, enquanto achamos que estamos agradando uma entidade onipresente e onipotente que fica lá em cima.

Não te lembra alguma coisa? Pois é. A literatura especulativa é rigorosamente sobre isso: fantasia que, por meio de suas alegorias, retrata a nossa realidade.

Que a série não perca o foco. Que não se deslumbre com efeitos especiais milionários para fazer o Iorek acontecer. Porque quando a gente tiver enfim a chance de chegar em A Luneta Âmbar, o terceiro e último livro, é preciso ter foco pra discutir a natureza da morte, a perda de quem se ama, e também a maturidade do amor conforme a criança se torna adulta — e o desejo. Porque, no fim, a coisa toda do Pó, por baixo da camada de misticismo pseudocientífico, é sobre desejo, tesão, vontade, sexo. E sobre como a Igreja resolve que um livro antigo pode cagar regra pra gente a respeito disso.

E este é o tipo de discussão que andamos precisando ter MESMO.