Virou clichê, mas é verdade: Legion talvez não fosse a série que a gente queria, mas foi a que a gente precisava. | JUDAO.com.br

Com um encerramento lindo e agridoce para a jornada de David Haller, o showrunner Noah Hawley nos entrega uma amarração sem respostas fáceis, mas do tipo que já deixa saudades

SPOILER! Assim que começou o episódio final de Legion, justamente com a frase “This is the end” escrita na tela, confesso que me bateu uma sensação genuína de tristeza.

Não tristeza pelo jeito que o encerramento da história é conduzido — neste caso, a sensação acabou sendo mista, uma melancolia com um toque de esperança, uma amarração delicada que voltou ao começo da série, à canção Happy Jack, do The Who. Noah Hawley fechou a jornada de David Haller do jeito que deveria, poderia, queria. E acho que é RIGOROSAMENTE a isso que se deve minha tristeza.

Por saber que não vou ter mais Legion comigo. Não tem outra temporada a caminho. É isso. Fim com gosto de FIM mesmo. E o pior/melhor é que tudo se encerra de um jeito que, sim, é óbvio que ficam pontas soltas, possibilidades, menos pelo que parece uma escolha comercial deliberada e mais pelo estilo narrativo que vemos desde o episódio 1. Mas são aberturas que só de imaginar alguém querendo tocar, caralho, você já fica puto e pensa “não, porra, não mexe em Legion, acabou daquele jeito, é a história que ele queria contar, começo, meio e fim, pronto”.

Fica aí o recado pra turma da Disney, coisa e tal, tal e coisa, conforme começar a revirar a caixinha de possibilidades da Fox. Vai brincar pra lá, com outros bonequinhos. Deixa este lá em cima, no armário, edição de colecionador, pra gente lembrar como é. Quer fazer OUTRA versão do Legião? Tá tudo bem. Só vai. Mas revirar esta aqui sem ser DESTE JEITO, putz, melhor não, pula pra próxima ideia.

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Tem uma frase, que é atribuída ao Alan Moore, como parte do documentário The Mindscape of Alan Moore, que versa meio assim: “Não é trabalho do artista dar ao público o que o público quer. Se o público soubesse o que quer, não seria o público, eles seriam os artistas. É o trabalho dos artistas dar ao público o que eles precisam”.

Uma dose cavalar de verdade quando a gente vai pensar em Legion. Uma série que veio no momento certo, nesta explosão de filmes bombásticos e universos compartilhados de super-heróis da Marvel. Uma série que, entre cores berrantes e efeitos especiais barulhentos, pegou justamente um personagem B, meio dúbio, esquisito, complexo, e lhe deu uma roupagem diferente.

Foda-se que ele faz parte dos X-Men. Vamos contar uma história que não dependa de referências, de easter eggs, que não tenha que mencionar mutantes, a perseguição do governo, que não tenha a necessidade de mencionar o Magneto ou alguém da família Summers pra fazer o público endoidar. Nada disso. Tampouco precisamos usar o visual clássico do personagem, cabelos arrepiados, aquela coisa toda. Da mesma forma, vamos contar uma história em que o personagem não é um super-herói, mas simplesmente um sujeito enfrentando a si mesmo.

Alguém em guerra contra a própria mente.

Legion se tornou uma série que pegou um conceito dos gibis e extrapolou. Não respeitou as regras dos quadrinhos, tava cagando pra ser ou não uma adaptação fiel. Mas o mais legal é que, mesmo assim, foi. Porque tomou a essência de um personagem e a trabalhou do jeito que QUIS e não do jeito que o público ESPERAVA. Virou uma série que, apesar de ser estrelada por um sujeito superpoderoso, é mesmo sobre nós e nossos próprios demônios.

É um tipo de estudo de personagem que a gente, o público, PRECISAVA. Por mais difícil, complexo e experimental que fosse. Para ser um oásis neste mar de hype e dezenas de trailers, pôsteres, cenas pós-créditos, cenas deletadas. Apenas e tão somente uma história sobre um pequeno grupo de personagens, que se dá ao luxo de dedicar um capítulo inteiro a contar uma trama sobre a mente de uma mulher presa em si mesma só que com ares de conto de fadas, com direito ao pai da “princesa” fazendo um duelo de rap contra o lobo mau. O final desta loucura, claro, está longe de ser esquemático e maniqueísta como se esperaria de um filme da Disney.

Vejamos esta última temporada. Viagem no tempo. O mesmo tema de Vingadores: Ultimato. Mas tratado de um jeito tão, mas TÃO diferente, com uma outra abordagem, mais sutil, uma viagem de ácido totalmente conectada com a paleta de cores da série, com suas escolhas criativas, com o olhar sob a lente da mente perturbada de David Haller, que você praticamente esquece que, numa realidade alternativa qualquer, Tony Stark desvendou uma fórmula matemática complexa pra viajar para outras eras.

Quem acompanha Legion, obviamente vai preferir a tecnicolor Switch abrindo uma passagem em pleno ar e te levando a percorrer corredores com entradas para o passado e para o futuro, vigiados por demônios de olhos brilhantes e que se movem em câmera lenta. Sem grandes teorias de impacto temporal, “ah, mas se eu encontrar o meu eu” ou porra nenhuma assim. Apenas uma viagem. Como tantas outras. Pelo coração e pela mente de David.

Tivemos, enfim, a aparição do seu pai — mas Noah Hawley simplesmente não o tornou maior do que a história que queria contar. Não é um Charles Xavier careca e na cadeira de rodas, como Patrick Stewart. Não é um Charles Xavier dando aula pra molecada, como o de James McAvoy. É um Charles que nem sequer é mencionado como Xavier, pra ser franco. Um Charles que é o pai, alguém que deixa a família para trás em busca de um semelhante e acaba desencadeando tudo que vimos na cabeça do filho.

E é na relação com este pai, que está longe de ser o líder dos X-Men, o pacifista em busca da relação tão sonhada entre os mutantes e os humanos, que se encontra a chave para que David entenda que sua batalha não é contra o mundo, contra o futuro, contra os amigos que se viraram assustados contra ele. A batalha está na sua mente tumultuada e ele precisa saber como pedir ajuda.

E mesmo um antagonista como o Rei das Sombras, um Amahl Farouk vivido de maneira BRILHANTE por Navid Negahban, é virado completamente do avesso quando encontra a si mesmo, o seu EU no passado — e o que era para ser uma batalha final repleta de efeitos, nas mãos de quem faz Legion se torna uma conversa franca, aberta e inesperada, um brinde numa mesa simples em meio a um imenso espaço em branco.

Legion se encerra, claro, sem respostas fáceis, sem a necessidade de explicações, sem didatismo. O destino de alguns personagens, como a dupla Kerry e Cary, fica no ar. “Ah, mas o Ptonomy, e os robôs com bigode, e a nave?”. Foda-se, gente. Nada disso é importante para esta conclusão.

Legion se encerra também sem julgamentos e sem finais felizes. David não fica com a mocinha no final, não é absolvido das merdas que fez. Pelo contrário. Tudo que se pede é que, desta vez, ele tente ser um “bom garoto”, por mais que nem ele e nem ninguém saiba exatamente o que isso significa. Nada aqui é fofo. Existe uma tentativa de sorriso, de alívio. Mas até ela dói.

De certa maneira, podemos dizer que Legion se encerra sem um final, propriamente dito. É mais como um recomeço. Um ciclo, uma oportunidade para que este homem se reencontre e se reconstrua, faça tudo de novo de maneira diferente, sem um peso nas costas. A oportunidade que todos nós gostaríamos de ter.

E dá pra dizer também que, da mesma forma que rolou ao longo destas três temporadas, Legion usou a música de maneira espetacular, criando neste episódio de encerramento um número musical ao som de Mother que, ow, falando sério, os caras do Pink Floyd deveriam sinceramente considerar como sendo o videoclipe oficial da canção a partir de agora.

No mais, obrigado por tudo, Noah Hawley. Foi uma viagem longa, complicada, turbulenta, dolorosa. Mas igualmente poderosa, intensa, maravilhosa. Foi um prazer viajar com você e entender não o que eu queria, mas sim o que eu PRECISAVA naquele momento.

Valeu DEMAIS. <3