Se for pra assistir a uma série do Greg Daniels com o Steve Carell, assista a The Office | JUDAO.com.br

Nova sátira da dupla responsável por uma das obras mais geniais da TV não só não faz jus ao histórico como, bem… :X

A soma do criador de uma das sátiras mais geniais da da cultura pop (que, por acaso, é também uma das melhores séries de comédia da história do mundo) com um dos grandes responsáveis por essa sátira ter sido o que foi (e ainda é, sem nenhum sinal de que deixará de ser), novamente apontando os dedos para alguns dos absurdos da humanidade, era a matemática perfeita pra mim. Não existia qualquer maneira de errar, tal como alguma coisa x1 ou a tabuada do cinco — que, nesse caso, talvez até demore um pouco pra engrenar, mas não erra... Né? NÉ?

Mas se de repente tem gente que acha que antifa é pior que fa, se The Office passou umas quatro temporadas sofrendo e perdendo a qualidade em muitos níveis e, bem, eu em algum momento da minha vida resolvi abandonar a ideia de fazer faculdade de ciência da computação só porque MATEMÁTICA, eu devia ter imaginado que, bem... Errar é possível, sim.

E Space Force, nova série de Greg Daniels, estrelada, produzida e co-criada por Steve Carell, é um erro. Ou, se não um eeeerro, uma coleção deles.

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Não há qualquer problema com a sua existência, comecemos por aqui. Space Force é mais uma produção original do Netflix e que, com os nomes que tem atrás e na frente das câmeras, consegue facilmente angariar fãs e, com alguma sorte, fazer todo mundo se unir em um riso ou outro. Além de Greg Daniels e Steve Carell, a série tem John Malkovich, Noah Emmerich, Fred Willard em um dos seus últimos, se não último, papel; até mesmo o diretor dos maravilhosos e perfeitos dois filmes do Urso Paddington, Paul King, dirige uns episódios. Paul Lieberstein, o Toby, escreve o penúltimo e produz alguns capítulos... Enfim.

É bastante fácil entrar de cabeça nessa série só porque sim. O problema é que a fórmula “produção original do Netflix + nomes atrás e na frente das câmeras + união de todo mundo se em um riso ou outro” se desgastou... e não é de hoje. Não é de agora.

Com toda essa coisa de MARATONAR, os roteiros se tornaram, num geral, longos e preguiçosos. Ninguém mais se preocupa com um episódio, já que sabem que, num geral, as pessoas vão investir um tempo num dia ou dois pra assistir a tudo e sair falando em redes sociais, gerando barulho e, assim sendo, fazendo com que mais gente assista e assim vai.

Normalmente também a primeira temporada serve como episódio piloto. Então, um ano ou mais depois, vem o segundo. O barulho, claro, se torna enorme, mas o interesse diminui com alguma rapidez — o que aconteceu com Sense8, ou Os Defensores da Marvel, não é coincidência. Stranger Things sobrevive porque conta com o fator nostalgia e a maravilha que as pessoas sentem em reconhecer referências, mas é essencialmente a mesma coisa... fica um enorme “por quê?” no final. Por que isso aconteceu? Por que fazem isso? Por que isso? Por que aquilo?

Space Force é uma coleção de “por quê?”.

“Por quê?”

Sabemos que o presidente dos EUA (uma versão sem nome de Donald Trump) quer que os militares coloquem “coturnos na Lua” o mais rápido possível e é o General Mark R. Naird, personagem de Steve Carell, quem vai comandar essa missão. A partir daí, tudo o que já vimos em outras séries e filmes relacionados a exploração espacial e governos, assim como na vida real, como o corte de verbas e a tomada de decisões arriscadas de última hora, domina a série.

No meio disso tudo, ainda temos a filha do General Naird, Erin, que começa a se envolver com um militar russo e que odeia morar naquela cidadezinha no Colorado, onde a base da Space Force foi instalada, tendo de se mudar da COSMOPOLITA Washington. A relação entre os dois dá uma estremecida em um ou dois episódios mas, em algum momento, a gente só fica como a claque de Fuller House, mandando um “óóóóun!” atrás do outro. Aí a gente faz um facepalm. Aí “óóóóun!”. Aí facepalm... Você entendeu.

E, bem... É isso. O desenvolvimento da história é quase nulo e se prende a algumas piadinhas (nossa, então aquele congressista acha que a Terra é plana! Entendeu? PLANA! Ele fala isso, cês viram? Hahaha, putz!) que fazem me sentir exatamente como Michael Scott se sentiu nesse momento de The Office.

Aliás, é impossível não dissociar The Office de Space Force e o motivo é bem simples: a nova série, enquanto se propõe a seguir uma espécie de mesma dinâmica da antiga, ao mesmo tempo faz questão de reafirmar o tempo todo que não tem qualquer relação com aquela — a interpretação, bastante forçada, de Steve Carell é o maior exemplo disso. Tanto esforço para que aquele chefe não seja comparado com o da filial de Scranton da Dunder Mifflin acaba não adiantando nada. Quer dizer, de fato um não se compara com o outro, mas fica horrível. :P

Outra coisa que me incomodou horrores é o fato de que, em algum momento, a esposa de Naird, interpretada por Lisa Kudrow, parece que vai ter algum papel importante na história (ainda que também interprete isso de uma maneira realmente vergonhosa) e, do nada, aparece na prisão sem que qualquer motivo seja apresentado até o fim da temporada (e que o criador Greg Daniels afirmou, em entrevista ao Wrap, afirma que se trata de “um mistério com o qual eles ainda tão se divertindo”). A impressão que dá é a de que desistiram da personagem depois que já tava tudo gravado e, pra não reeditar ou sei lá, inventaram esse esconderijo e, assim, conseguiriam manter a “Phoebe de Friends” no elenco.

Porque, olha, sinceramente... Ela não precisava estar presa pra fazer o que faz. Ok, só uma única coisa ela não tem como fazer se não estiver presa, mas se ela não tivesse ela poderia dar um jeito de fazer algo próximo. Oh well.

Meu cinismo, a essa altura do campeonato, me impede de ficar de fato chateado com algo que eu esperava que fosse ser tão legal e que, no fim, não só não é legal como eu ainda consegui achar RUIM. É o mesmo cinismo que me faz largar a série e ir atrás de outras coisas pra assistir, e até jogar. Em tempos de pandemia, meu tempo tem valido um poooouco mais do que valeu em outros momentos...

Mas é a vida, né? Nem sempre a gente ganha. Acontece.