Wonderwall: o hit que desafia haters e moderninhos no streaming | JUDAO.com.br

O hit absoluto do Oasis lançado em 1995 ocupa inesperadamente, e já há algum tempo, um estranho papel no Top 200 do Spotify entre um monte de canções lançadas mês passado

Lá em 2001, quando tive a chance de cobrir todos os dias da terceira edição do Rock in Rio, a data que trouxe os Guns n’ Roses como headliners talvez tenha sido a mais estranha de todas — em especial para os irmãos Noel e Liam Gallagher. ENSANDUICHADOS entre a trupe de Axl Rose e seus apadrinhados nu metal do Papa Roach, os músicos do Oasis encontraram uma plateia que já tava NO GRAU depois do incidente com Carlinhos Brown durante a tarde, aquela coisa toda das muitas garrafas d’água atiradas no palco, coisa e tal.

No geral, eles preferiram evitar a fúria dos camisas pretas esperando Welcome to The Jungle e jogaram o jogo mais seguro, apostando nos hits tocados de maneira quase idêntica à dos discos — o que acabou gerando uma apresentação MODORRENTA, sem muita interação com o público, que em certo momento estava até sentado no gramado, meio desanimado. Mas aí veio Wonderwall. E a galera foi à loucura, real oficial. Todo mundo levantou e cantou a plenos pulmões, para total surpresa do Noel, que ao final da canção mandou um surpreso (embora contido) “Uau”.

Hoje, quase 20 anos depois, se eles parassem de brigar tanto, talvez tanto Noel quanto Liam fossem ficar igualmente surpresos ao descobrir que a faixa que originalmente se chamava Wishing Stone é a ÚNICA pré-anos 2000 a figurar com certa frequência na lista Top 200 de canções mais ouvidas do Spotify, versão global. Tá bom, se você prestar atenção na lista, vai encontrar umas canções do Queen entre nomes como Travis Scott, Post Malone, Billie Eilish, Lizzo, Camila Cabello e Lil Nas X. Mas aí é meio que roubar no jogo, já que a veterana banda britânica lançou recentemente um filme milionário, campeão de bilheteria, vencedor de Oscar, a porra toda.

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Quanto ao Oasis, tamos falando de um grupo que não atua junto há mais de uma década e que, na real, acaba sendo mais mencionado na imprensa especializada pelas tretas entre seus líderes. E apesar de ser o maior hit, disparado, da carreira da banda, estamos falando de uma faixa que, na época do lançamento, lá em 1995, não chegou nem a ficar em primeiro lugar nas paradas de sucesso dos Estados Unidos e nem da Inglaterra, sua terra de origem, por exemplo.

Mesmo assim, de acordo com levantamento feito pela Rolling Stone, desde 2017 a música vem se tornando presença constante no Top 200 — na época, com cerca de 570.000 streams ao dia. Em certo momento, chegou até a se posicionar entre os Top 150. Mas em média, nos últimos 24 meses, Wonderwall tava lá, carimbada entre as 200 músicas mais ouvidas: no momento em que este texto foi escrito, a música estava no 185o lugar desta lista, com 642.686 plays ao dia. No total, até o momento, a música tem polpudos 784.040.457 streams. Se seguir a mesma taxa de crescimento, chega tranquilamente no primeiro bilhão de tocadas nos próximos 12 meses.

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O que estes números significam, em termos FINANCEIROS? Estes cerca de 640.000 plays / dia querem dizer que, na prática, a gravadora Sony Music está embolsando, diariamente, por volta de US$ 2.650 em royalties. Se a gente extrapolar isso pra 1 ano, dá quase 1 milhão, assim, limpinho, sem gastar em rigorosamente nada de marketing — na real, a única divulgação, totalmente gratuita, são os próprios irmãos Gallagher tocando ao vivo a canção em seus respectivos setlists solo, tanto de um lado quanto do outro.

Consideremos ainda nesta conversa que, salvo raríssimas exceções, superstars modernos (com carreiras beeeeeeeem menos focadas nas vendas físicas de outrora) custam muito mais para as gravadoras do que as velharias — além de terem um prazo de validade normalmente bem mais curto, eles hoje geram em média 50% em direitos autorais para as companhias, quando nos “bons e velhos” anos 1990, por exemplo, o valor era de 20% para os artistas e 80% para os selos musicais. Grandes empresas ainda são grandes empresas e ainda ganham GAZILHÕES de dinheiros, não se enganem, sem peninha aqui. Na real, cá entre nós, esta pode até ser considerada uma boa notícia, ainda que se aplique basicamente a GRANDES estrelas da música, né? Os independentes, ah, estes continuam se fodendo.

Mas é bom que se diga também que Wonderwall se torna uma espécie de exceção a uma regra que estudos como o da empresa de análise do mercado musica Alpha Data vêm mostrando. Por exemplo: uma pesquisa recente mostra que, dentro dos serviços de streaming nos EUA, as canções do chamado “deep catalog” (aquelas lançadas mais de três anos antes de um usuário apertar o play propriamente dito) estão cada vez mais perdendo mercado num Spotify da vida. Na real, mais da metade dos streams em serviços tipo Spotify, Deezer e afins são ORIUNDOS de faixas lançadas entre 2016 e 2019. WOW!

“Eu fiz uma turnê nos EUA com os Smashing Pumpkins”, conta Noel, o autor da canção, em entrevista pro site The Face. “E a visão de dois caras meio góticos, um com uma camiseta do Rancid, outro com uma do Kiss, abraçados e cantando Wonderwall em Arkansas, não é algo que a gente veja todo dia. E detalhe que eles nem sequer reagiram a qualquer outra música que tocamos. O que diabos tem esta música de tão especial? É uma loucura”.

Ninguém sabe direito. Mas existe o fato de que, por algum motivo, Wonderwall se tornou atemporal o bastante para cair nas graças de um público mais jovem — porque, sejamos honestos, acreditar que apenas e tão somente a empolgação dos tiozinhos e tiazinhas que estavam lá quando (What’s the Story) Morning Glory? foi lançado, 24 anos atrás, é o que sustenta este resultado, é ser de fato MUITO inocente. Assim como é inocente acreditar que foram apenas os plays dos cabeludos de outras eras que fizeram com que Sweet Child O’ Mine, dos mesmos Guns n’ Roses que dividiram aquele RiR 2001 com o Oasis, se tornasse o primeiro vídeo dos anos 1980 a ultrapassar a marca de um bilhão de visualizações no YouTube esta semana.

Nostalgia pela nostalgia é mesmo um saco. Mas quando diferentes gerações descobrem seus respectivos clássicos musicais e existe algum tipo de troca aí, é muito legal. Isso definitivamente evita que C E R T O S ~ídolos de tempos passados resolvam que vão se tornar a patrulha oficial da camiseta de rock alheia, não é mesmo?