Dark Knight III: Frank Miller não é só mais um souvenir na estante | JUDAO.com.br

É, isso: Frank Miller DID IT AGAIN

O Cavaleiro das Trevas 2 é uma merda”. Essa frase é, de certa forma, um dos maiores lugares comuns das histórias em quadrinhos. Ok, REALMENTE Frank Miller não foi lá muito feliz nas escolhas da continuação de um clássico. Mas continuar um clássico — e acertar! — mais de uma década depois não é fácil, principalmente se você quer inovar sempre.

E Frank Miller tá sempre inovando.

Treze anos depois da verdadeira megalomania super-heroica que foi The Dark Knight Strikes Back, a DC decidiu se arriscar mais uma vez, chamando Frank Miller – agora ao lado de Brian Azzarello nos roteiros e com arte de Andy Kubert e Klaus Janson – pra fazer Dark Knight III: The Master Race. E o resultado, pelo menos no #1, lançado pela DC Comics nesta quarta (25), é incrível.

Uma história boa, bem escrita, consistente. E o mais sensacional: com todas as personagens importantes sendo mulheres. TODAS.

Todas as personagens importantes de DKIII #01 são mulheres. TODAS.

DKIII é fruto de um período conturbado. Primeiro para o próprio Miller, que há alguns anos não consegue mais repetir o sucesso de lançamentos como Sin City e O Cavaleiro das Trevas original, o que foi agravado pelo problema de saúde que ele teve. Depois pra própria DC, que tentou promover um relançamento de suas revistas este ano, mas viu que a estratégia da Marvel deu mais certo. Um sucesso comercial nesse finzinho de 2015 é peça chave pra não ser um ano perdido.

Apesar de Frank Miller falar por aí que a história é do Azzarello e não dele, DKIII tem tanto o estilo clássico do quadrinista que ele chega a escorrer pelas páginas, de tão gritante. Fazem sentido não só os nossos recentes comentários sobre co-autoria, mas também as informações do Bleeding Cool, que afirma que Miller deu essas declarações para garantir que o nome do Brian ganhe o devido destaque. Só que Azzarello chegou a até passar um tempo em Hell’s Kitchen, convivendo com o mestre – que deu o direcionamento do plot original, leu tudo e até chegou a escrever uma boa parte dos diálogos.

Mas tem o estilo do Azzarello, também. No final, a mistura funcionou muito bem. Isso fica claro porque Frank Miller sempre teve vocação pra colocar personagens femininas em destaque em suas obras, mas acabava muitas vezes errando nos tons – sendo acusado diversas vezes de misoginia, por exemplo. Já Azzarello tem uma outra postura, sendo muito elogiado pelo recente reboot que ele fez com a Mulher-Maravilha.

O resultado é que DKIII #1 é uma história sobre mulheres. É da Comissária Ellen Yindel, que precisa enfrentar a imprensa depois que o Batman é visto em Gotham; é da RP da Prefeitura, que (em mais uma crítica) entrega seus discursos prontos e versões totalmente alinhadas; é sobre a Mulher-Maravilha, carregando (e amamentando!) o pequeno filho Jonathan enquanto enfrenta o mundo, como qualquer outra mãe; é sobre a Lara, a filha do Superman e da Mulher-Maravilha apresentada em DK2, que sofre em busca de sua origem e suas raízes perdidas com a destruição de Krypton; e é sobre Carrie Kelley, que luta pra manter vivo o legado controverso de Bruce Wayne.

Porque sim, ELA é o Batman. E nem venha reclamar de spoiler: isso está nos previews da segunda edição, em parte do argumento de venda da própria DC e nas entrevistas dos dois roteiristas.

Mulher-Maravilha

Outro detalhe que chama a atenção é que pela primeira vez temos uma arte um pouco mais convencional em O Cavaleiro das Trevas. Andy Kubert tenta mesclar seu estilo com o do Miller, buscando referências no traço das duas primeiras partes, ainda mantendo um ar mais tradicional. Pode ser interessante pra quem reclama dos exageros do Miller, mas perde um pouquinho da identidade. Talvez isso pudesse ter sido recuperado nas cores, dessa vez feitas por Brad Anderson, que ficaram iguais aos de qualquer outro gibi da DC – apesar dele procurar uns tons parecidos ao trabalho original.

Lynn Varley fez falta. Mas como ela se separou do Frank Miller em 2005, talvez tenha ficado inviável esse retorno...

Outro acerto da história está no uso da comunicação nesse século XXI, da mesma forma que Miller usou a comunicação dos anos 1980 na graphic novel original. Se antes era a TV que ditava parte do enredo, agora é a linguagem da internet, redes sociais... E a TV só entra pra repercutir depois, “essas fotografias viralizaram na última noite”, junto com um debate interminável em telejornais, talk shows, programas de humor...

Na parte final, o gibi ainda traz Dark Knight Universe Presentes: The Atom #1, uma história curta do Eléktron, que tem total envolvimento com a HQ principal. Aqui foi tudo desenhado pelo próprio Frank Miller, que também está mais contido no estilo. Talvez porque ele quis assim. Talvez pra casar com o traço do Kubert.

O que fica é que Dark Knight III: The Master Race #1 é uma história supreendentemente boa, mostrando que a união entre Miller e Azzarello foi o melhor dos mundos. Resta agora saber se vão continuar no mesmo ritmo pelas próximas sete edições. E, claro, em Dark Knight IV, que já foi anunciado pelo próprio Frank Miller.

Agora, se você ficar de mimimi, “nunca vai superar o original” e “estragaram minha infância”, uma dica: o seu clássico de 1986 ainda tá lá, inteirinho. Ninguém mudou aquilo. Mas, como diz o próprio Batman no final de DK2, “souvenires, querida. Nada além de souvenires. Eu fui sentimental... Quando ainda era velho”.